A tardia corrida da imprensa rumo à “datificação” do público

Relacionamento com o leitor é a nova expressão mágica no meio jornalístico online. De repente surgiu uma corrida dos principais jornais do mundo e do Brasil na busca de informações sobre os seus leitores. Mas o movimento ainda é visto com muito ceticismo pelo público que não consegue distinguir entre se é uma iniciativa para atender efetivamente as necessidades dos leitores ou se não passa de mais uma armadilha para obter dados que serão usados para atrair anunciantes.

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Não vai ser fácil e nem rápida a solução desta dúvida porque ela implica uma mudança na secular relação comercial entre jornais e público para um modelo que provavelmente será de parceria entre iguais, num contexto em que a venda de notícias será substituída pela produção de conhecimento como motivador principal no relacionamento entre leitores e a imprensa.

Já não é de hoje a constatação de que a sobrevivência dos jornais e revistas depende dos leitores tanto no que se refere ao fator financeiro como na captação de notícias. A secular dependência em relação à publicidade paga já não garante a sustentabilidade da imprensa. Mas ela gerou comportamentos, normas e valores tão entranhados entre os jornalistas e donos de empresas jornalísticas que a transição para um novo modelo de negócios foi enormemente dificultada.

Jornais como o The New York Times e The Guardian, sem falar nos projetos digitais como Huffington Post e The Correspondent embarcaram em ousados projetos destinados a convencer leitores a fornecer dados pessoais em troca de um noticiário mais personalizado. O que os jornais desejam é garimpar dados para produzir perfis mais completos do seu público e com isto desenvolver estratégias de comercialização (sistemas de assinaturas ou cobrança por acesso a partes do conteúdo noticioso) e de publicidade (vincular os interesses de leitores à anunciantes específicos).

O grande desafio da nova estratégia da imprensa mundial é como convencer os leitores a abrir dados pessoais, numa sociedade onde a privacidade é um valor incontestável. Mas acima de tudo a imprensa terá que descer do pedestal em que se colocou ao se autoproclamar “Quarto Poder” político para assumir que está no mesmo plano que os leitores. Até agora os principais interlocutores da mídia na hora de produzir notícias vendáveis eram os governos, políticos e as empresas. O contexto digital deu ao público um papel tão ou mais importante como fornecedor de insumos noticiosos.

O fenômeno da “datificação”

O fato de manejar informações numa era de escassez informativa, a era pré internet, fez com que a imprensa tratasse a digitalização como um modismo durante muito tempo, o que de certa forma anestesiou o processo inovador na produção de notícias e atrasou sua entrada, para valer, no fenômeno chamado de “datificação”, já praticado em larga escala, e há uma década, por empresas como Google, Amazon, Facebook, Microsoft, Twitter e Apple, só para mencionar as maiores. O fenômeno é uma das mais revolucionárias novidades criadas pelas tecnologias digitais e que, em médio prazo, deve introduzir alterações radicais na economia mundial e na forma como nos relacionamos com produtos e serviços.

Ao propor um engajamento mais completo com o público na captação de dados pessoais, a imprensa dá os primeiros passos num ambiente onde já existe uma preocupação mundial sobre o que governos e empresas fazem e farão com o que sabem sobre nosso quotidiano, incluindo preferências em matéria de lazer, cultura, emprego e política. O mega poder econômico assumido por empresas como Google, Facebook e Amazon surgiu a partir de dados pessoais obtidos gratuitamente e que depois foram transformados em informações milionárias. Hoje já se fala num “colonialismo de dados”, uma metáfora que lembra a forma como o colonialismo dos séculos XVIII e XIX explorou recursos minerais, petrolíferos e agrícolas dos países pobres.

A imprensa entra na datificação como tábua de salvação empresarial num ambiente em que os questionamentos sobre manejo e destinação dos dados individuais crescem e se diversificam. Na Europa, as redes sociais, as mais importantes captadoras de informações sobre pessoas, estão sob forte pressão governamental . Mas o público já começa a se mostrar sensível à redução de sua privacidade e a tendência é aumentar a resistência ao fornecimento gratuito de dados, gratuitamente ou a custos ínfimos, para alimentar rendimentos bilionários de empresas.

Além de quebrar a barreira da privacidade, os jornais terão que convencer seus leitores de que o fornecimento de dados individuais será usado, prioritariamente, na seleção, formatação e publicação de informações que servirão para que as pessoas desenvolvam conhecimentos no trabalho e no convívio social.

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