A sobrevivência está “fora da caixa” na imprensa local

No meu trabalho com publicações locais no interior do Brasil inevitavelmente surge sempre a afirmação de há poucos jornalistas para cobrir o noticiário, mesmo nas cidades pequenas. A queixa fica ainda mais forte quando surge a questão da internet e das redes sociais. De fato, a maioria das equipes tem menos de três ou quatro profissionais para buscar, editar e publicar notícias locais, o que para muitos é um problema insolúvel e que ameaça a sobrevivência da maioria das publicações.

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Foto Jornal Metas / Ivan Lutemberg

Se formos seguir esta lógica, realmente não há saída, mas mudando as regras do jogo, a sobrevivência além de viável pode ser promissora. É o que alguns especialistas chamam de “pensar fora da caixa”, um dilema que já está sendo enfrentado por muitos jornalistas locais depois de perceberem a inevitabilidade da quebra financeira, se nada for feito . Apesar disto, nem todos assumiram este desafio mostrando que na imprensa local há os que valorizam o jornalismo acima de tudo e os que se preocupam mais com o investimento feito.

Há um consenso quase geral entre os jornais locais e comunitários de que a situação financeira da pequena imprensa é cada vez mais difícil e que é inevitável a migração para um sistema que contemple tanto uma edição impressa como versões na internet e redes sociais. Mas como o dinheiro já está curto para o impresso, ou para uma rádio analógica, não há sobra alguma para financiar uma página Web ou espaço em redes sociais, mesmo que os custos na versão online sejam muito baixos.

“Pensar fora da caixa” nestas circunstâncias implica testar algumas medidas que ainda são consideradas heresias no jornalismo, como por exemplo, recorrer à ajuda de moradores para produzir notícias e/ou buscar apoio financeiro. Não é uma mudança fácil porque mexe com hábitos e valores seculares no jornalismo. Está é a fase mais difícil e complicada no processo de sair da zona de conforto dos hábitos e rotinas já conhecidos.

As plataformas múltiplas

A migração para a internet implica a implantação de um sistema que integra a produção em equipamentos (plataformas no jargão técnico) analógicos, como jornais, revistas, radio ou TV e plataformas digitais (website, redes sociais, webradio, webtv e multimídia) . Normalmente as publicações locais começam nas redes sociais replicando material publicado no impresso, mas isto geralmente é frustrante porque não gera volume significativo de visitantes e muito menos chama atenção de potenciais anunciantes.

O jeito é aumentar a intensidade e a qualidade da produção na internet, o que exige gente com mínimos conhecimentos de computação ou horas extras de algum repórter da versão impressa. Tanto uma solução como a outra envolvem questões financeiras que só podem ser resolvidas “fora da caixa”, ou seja, por meio de algum tipo de compensação futura baseada na aposta de que o aumento de qualidade e frequência no blog, website ou rede social da publicação atrairá visitantes e anunciantes virtuais.

A experiência me mostrou que o caminho em direção à plataforma múltipla exige muita negociação e conversa na redação, ambas alicerçadas numa confiança mútua entre donos e funcionários. A regra mais comum é a da desconfiança, o que vai criar a necessidade de buscar uma posição conjunta a partir do desenvolvimento da consciência de que o emprego de todos, patrões e empregados, depende do sucesso na diversificação das plataformas de publicação.

Estas são questões básicas para que a imprensa local possa sobreviver na era digital e atender às necessidades de comunidades que, mais do que nunca, precisam de elementos para separar o joio do trigo numa avalancha de notícias falsas, meias verdades e desinformação. Nunca antes na história da humanidade nós passamos a depender tanto da informação como agora, o que transforma a imprensa, especialmente a local, numa ferramenta indispensável para qualquer cidade, por menor que seja.

Em próximos post pretendo detalhar problemas relacionados à produção local em plataformas múltiplas, bem como o critico desafio de integrar publicidade e informação num projeto jornalístico. É claro que há muito mais gente com experiências até mais completas que a minha, por isto, o ideal seria uma troca de ideias por meio da área de comentários aqui do blog, usando o espaço Responses, aqui em baixo.

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