A responsabilidade da imprensa na desmontagem da corrupção estruturada

Os telejornais da Rede Globo, tanto os da TV aberta como os da GloboNews (fechada) desenvolveram uma estratégia clara de vincular as quantias usadas pela empreiteira Odebrecht em propinas, caixa 2 e doações de campanha à verbas que poderiam ser usadas na construção de creches, hospitais, escolas, bem como na compra de ambulâncias e ônibus escolares.

Do ponto de vista jornalístico é um recurso válido porque materializa cifras absurdamente altas permitindo que o telespectador comum tenha uma ideia concreta do que seria possível fazer com este dinheiro que alimentou o submundo da política desde os anos 80. Esta materialização de números abstratos pode servir de base para comentários e editoriais sobre formas de resolver o problema, o que também é um recurso jornalístico válido.

Acontece que a emissora vincula os números e comparações, a uma abordagem moralista do escândalo de corrupção, destacando especialmente dois aspectos: a culpabilização dos acusados por meio do detalhamento das revelações feitas pelos delatores da Odebrecht; e a ênfase nos possíveis prejuízos que as populações mais pobres teriam em consequência do uso fraudulento de recursos públicos e privados, desviados para o sistema financeiro clandestino usado para subsidiar partidos, políticos, candidatos e principalmente empresas contratadas pelo governo para o desenvolvimento de obras públicas.

Os telejornais da Globo reproduziram as alegações dos políticos mencionados nas delações em atendimento à regra jornalística de ouvir os dois lados. Esta preocupação formal foi, no entanto, anulada pelo desequilíbrio no tempo dedicado a cada uma das partes. Enquanto a acusação teve amplo espaço, a defesa dos suspeitos se limitou a declarações burocráticas e quase padronizadas. É claro que esta diferença de ênfases influi na forma como o telespectador forma a sua opinião. O que não se sabe é se a minimização das defesas é uma estratégia editorial dos telejornais ou se os acusados simplesmente desistiram de se defender perante a opinião pública, esperando que o escândalo acabe esquecido.

A Rede Globo foi particularmente econômica na abordagem das formas de extirpar os fatores que deram origem ao surgimento de uma verdadeira “cosa nostra” em Brasília, reunindo políticos e empresários. A investigação do escândalo foi facilitada pela avalanche de delações premiadas de executivos e ex-executivos da Odebrecht interessados em salvar a própria pele, já que o futuro da empresa aponta no sentido de uma falência ou concordata. Mas a correção das distorções surgidas no processo eleitoral e na realização de obras públicas é um tema muito mais complexo e que não será resolvido se ficar na dependência de um sistema legislativo contaminado por suspeitas e por um grande número de parlamentares cúmplices da corrupção.

O precedente do mensalão

Como o jornalismo é, em teoria, um serviço de interesse público, as empresas e profissionais do ramo tem uma enorme responsabilidade no levantamento das questões que precisam ser discutidas pela população. O apodrecimento do sistema político brasileiro é um dilema importante demais para ficar apenas na órbita legislativa, judicial e policial. Todos estes setores, incluindo a imprensa, sabiam da existência da corrupção institucionalizada na política e só agiram quando surgiu algum interesse eleitoral, como foi no caso do mensalão e agora na Lava Jato. A análise dos desdobramentos do mensalão mostrou que muito pouca coisa mudou no âmbito da política e das relações escusas entre governantes, parlamentares e empreiteiras privadas. Ninguém foi ao fundo do problema e ele continuou a corroer as instituições nacionais.

Como as pesquisas mostram que 70% dos brasileiros se informam pela TV, os telejornais tem uma enorme responsabilidade na forma como será feita a reengenharia e a sanitização do nosso sistema político. Caso nada seja feito, o volume e o caráter moralista da cobertura jornalística acabarão dando margem a que a população se sinta frustrada, desiludida, descrente e talvez revoltada, em relação aos políticos que atualmente ocupam cargos legislativos ou executivos.

Este é o ambiente perfeito para o surgimento de movimentos e lideranças populistas, provavelmente de extrema direita, que tendem a se apresentar como descomprometidos com a corrupção estruturada e entranhada no sistema político nacional. Como os populistas conservadores precisam obter resultados rápidos para ampliar apoio popular, a tentação autoritária será muito forte, quase irresistível.

Uma afirmação como esta pode parecer um wishfull thinking ( jargão inglês para algo que uma pessoa espera que aconteça) mas a ciência política mostra que ela já ganhou status de fenômeno histórico, dada a sua repetida ocorrência em situações de desorientação popular, impasses institucionais, ausência de soluções claras e insegurança política. Em 1964, nós vivemos um clima semelhante quando o grande vilão era uma hipotética ameaça comunista.

O papel da comunicação é fundamental porque hoje o processo político não se move mais com base em fatos palpáveis, verdades absolutas e provas inquestionáveis, mas a partir de percepções geradas pelo fluxo de dados, fatos e eventos divulgados pela imprensa e pelas redes sociais. As impressões tendem a ser mais impactantes do que a racionalidade dos processos jurídicos, como veremos muito provavelmente na próxima fase das investigações das delações da Odebrecht.

O risco do populismo conservador

Pelo teor dos depoimentos dos delatores é possível prever que muitas das afirmações não poderão ser comprovadas materialmente porque surgiram durante conversas informais. Por seu lado, os acusados também contam com poucas evidências para provar que não fizeram o que lhes é imputado porque no submundo da corrupção estruturada pela Odebrecht só a empreiteira guardou registros. Para o público ficará uma palavra contra a outra, e aí a que merecer maior destaque no noticiário acabará ganhando ares de veracidade.

Se a imprensa for fiel a seu discurso democrático e anti-autoritário, ela terá que prestar muita atenção à forma como levará ao conhecimento da população os desdobramentos políticos, jurídicos e policiais das delações premiadas de atuais e ex funcionários da Odebrecht. Agora, a preocupação principal da população é a desmontagem da máquina de corrupção e há dois caminhos possíveis: um mais fácil e rápido, com predomínio da preocupação moralista em castigar protagonistas e sancionar órgãos públicos e empresas corruptas e corruptoras; o outro caminho é bem mais complexo, pois implica extirpar comportamentos pessoais, hábitos políticos, normas governamentais e processos legais que se provaram incapazes de evitar a delinquência do colarinho branco.

Normalmente as elites preferem a primeira opção porque é mais rápida e simples, mas a avalanche de suspeitas de corrupção levantada pelos delatores da Lava Jato é grande demais para ser contida e resolvida apenas por paliativos. Cabe à imprensa mostrar para a população que o remédio é complexo, vai exigir a participação de todos nós e não será rápido. Se os jornais, revistas, telejornais, emissoras de rádio e as redes sociais falharem neste objetivo, caberá a eles boa parte da responsabilidade pelo que acontecer depois.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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