A reinvenção do jornalismo

A revisão profunda e radical das teorias, rotinas e valores do jornalismo contemporâneo se torna cada dia mais urgente diante da crise que afeta quase todos os setores de uma atividade, onde as empresas não sabem o que fazer, os profissionais estão desorientados e o público cada vez mais descrente na informação que recebe.

Já passamos da fase das lamentações e saudosismos. O cenário que está surgindo no meio da crise mostra que chegamos a um momento histórico em que perderam sentido as indagações sobre se e como a mudança ocorrerá. Agora ganha corpo a preocupação sobre quando ela assumirá um caráter irreversível.

A crise do jornalismo contemporâneo não é apenas causada pela internet, pela digitalização, pela crise de um modelo de negócios e nem só pelas mudanças de comportamento no público. É também uma crise política na medida em que as empresas jornalísticas, pressionadas por mudanças no contexto partidário e ideológico, bem como pelas consequências financeiras da crise no seu modelo de negócios, trocaram a preocupação com o bem público pela participação direta no jogo do poder institucional.

Esta grave distorção no papel do jornalismo impõe uma dissociação clara entre a profissão e o negócio do jornalismo, entre a preocupação dos profissionais com a informação de interesse público e as estratégias financeiras, corporativas e político-ideológicas das empresas. Trata-se de uma dissociação essencial para o exercício do jornalismo porque em caso contrário, a profissão perderá credibilidade e independência perante os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

As novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) ainda desafiam a capacidade adaptativa da maioria dos profissionais do jornalismo. O turbilhão de mudanças, as novas perspectivas e condições de trabalho continuam gerando perplexidades e dilemas para quem vive da produção e distribuição de notícias. A estas preocupações se somou o fator político, o que torna ainda mais complexa a necessidade de uma revisão nos princípios, procedimentos e valores da profissão.

Grandes conglomerados empresariais no ramo da comunicação estão usando o jornalismo como ferramenta política para interesses corporativos, eleitorais, ideológicos e partidários. Isto pode ser visto diariamente nos telejornais da Rede Globo cuja pauta deixou de ser determinada pelo interesse público para ficar subordinada ao que as Organizações Globo almejam em matéria de política e de negócios. Dados, fatos e eventos são omitidos ou realçados em função destes interesses, confundindo o público que recebe mensagens e recados achando que lê, ouve ou vê noticias isentas.

Uma parceria em questão

As empresas jornalísticas ocuparam um papel importante na era industrial do capitalismo porque exerceram a função de viabilizar plataformas tecnológicas como os jornais, revistas, livros, as emissoras de rádio e de televisão. O custo para desenvolver a indústria da informação era muito alto e só empresas ou governos podiam assumi-lo. Para poder desenvolver o seu negócio, os empreendedores da informação recorreram à mão de obra jornalística iniciando uma parceria que já tem quase dois séculos. A associação com as empresas, durante o século XIX , serviu para depurar o jornalismo da mentalidade voluntarista e personalista, materializada na chamada imprensa marrom e nas publicações vinculadas a interesses familiares. A parceria gerou uma profissionalização dos jornalistas porque seus patrões precisavam transmitir uma imagem de isenção e objetividade para ampliar audiências e lucros.

As empresas jornalísticas continuam válidas e não desaparecerão, mas a sua parceria com o jornalismo está sendo submetida ao duro teste das incertezas provocadas pela abrupta queda na lucratividade nas indústrias da informação. A existência do jornalismo não depende mais apenas das empresas porque ele pode ser exercido também por meio de plataformas tecnológicas muito mais baratas, algumas delas até gratuitas, sem o condicionamento gerado pelos interesses comerciais, corporativos e político-ideológicos de corporações industriais.

O exercício do jornalismo não precisa mais estar associado a um vínculo empregatício. Ele pode ser desempenhado de forma autônoma, individual ou coletivamente. Esta independência operacional permite com que haja diversidade na produção informativa, ao contrário do que ocorre entre as corporações onde a tendência é a concentração empresarial como recurso para tentar sobreviver à queda no faturamento e à evasão de público.

A dissociação entre o jornalismo de interesse público ou comunitário, e o jornalismo como parte de corporações industriais implica o abandono, por parte dos profissionais, de uma zona de conforto criada pela legislação trabalhista vigente no país e pelo prestigio social gerado pela associação entre jornalismo e tomadores de decisões na área governamental, politica, diplomática e econômica.

A reinvenção do jornalismo e o fim da dependência econômica das empresas jornalísticas é um processo complexo e que pode durar algum tempo, mais curto em algumas regiões, e mais longo noutras. Mas é inevitável porque fatores econômicos e tecnológicos tornam irreversível a mudança do contexto em que a profissão foi exercida até agora.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store