A internet está virando um octógono de UFC com muitos lutadores cada um por si

O congresso norte-americano se transformou num campo de batalha entre políticos e executivos de empresas como Facebook, Google e Twitter, fato que pode mudar muita coisa na forma como nos relacionaremos com as tecnologias digitais de informação e comunicação (TICs) .

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Ilustração AlphaNews / Creative Commons

Os legisladores querem manter o controle da agenda pública de debates exercida através da imprensa, usando como principal argumento a responsabilização das três grandes de Silicon Valley pela disseminação e politização do fenômeno das notícias falsas (fake news).

O caso da interferência russa para favorecer a candidatura de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016, por meio da difusão de notícias falsas pelas redes sociais, incorporou o fantasma da guerra fria entre Washington e Moscou na batalha atualmente em curso no Capitólio, sede do congresso norte-americano.

Trump, Rússia e a insegurança informativa provocada pelas fake news são, no entanto, uma cortina de fumaça para o verdadeiro confronto que é entre defensores e críticos da regulamentação da internet, ou seja, como as tecnologias de comunicação e informação serão ou não submetidas a uma camisa de força para que não ameacem a hegemonia do sistema de poder vigente .

É um confronto entre o novo e o velho em matéria de informação e de como ela é criada, formatada e distribuída. Mas não é uma batalha entre bons contra maus. Facebook, Twitter, Google, Microsoft e Apple, empresas apelidadas como as “Assustadoras Cinco” (Frightful Five) por Fahrad Manjoo, analista de tecnologia do jornal New York Times, ao mesmo tempo em que se apresentam como defensoras da inovação para um mundo melhor, formam um lobby poderosíssimo para proteger a sua hegemonia neste inicio da era digital.

Uma batalha com várias lógicas

O confronto de legisladores norte-americanos com as Frightful Five mostra como será complexa a relação futura entre governos e as empresas de tecnologia, porque cada parte trabalha com base na lógica que mais lhe convém. A lógica industrial seguida pela maioria dos governos baseia-se nas leis vigentes enquanto a lógica dos conglomerados digitais segue as “leis” ditadas pela interpretação que eles dão ao comportamento dos usuários da internet.

O conflito de interesses tende a se complicar porque cada dia surgem mais protagonistas. No lado dos que desejam regulamentar a internet há divergências os que pretendem que ela proteja os interesses econômicos do “establishment” financeiro e os que, como a China, desejam uma regulação mais política. Seria mais ou menos como imaginar um ringue de UFC com vários lutadores cada um deles com seu próprio objetivo e estratégias, enfrentando simultaneamente todos os demais.

No chamado contexto digital, as Frightful Five, e outras gigantes do segmento, querem criar uma reserva de mercado dificultando ao máximo a entrada de concorrentes, enquanto crescem continuamente as pressões de usuários e as populares start-ups, ambos contrários ao poder avassalador que está se concentrando nas mãos das mega corporações de Silicon Valley , mais a Amazon, que surgiu como livraria mas hoje é uma gigante na “nuvem virtual”. O escritor e professor irlandês John Naughton chegou a pedir o “surgimento de um líder tipo Martinho Lutero para acabar com a Igrejas da Tecnologia”, numa analogia ao desafio do criador do protestantismo ao poder da igreja Católica, há 500 anos.

Tudo isto somado pode alterar drasticamente a ideia, que muitos ainda alimentam, de uma internet livre, sem donos, sem vigilantes e onde todos podem ser ouvidos . Este era o sonho dos pioneiros da World Wide Web no século passado. É quase impossível uma volta ao passado mas é cada dia mais provável que muitos sonhos das novas gerações digitais não venham a se concretizar.

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