A guerra da informação já começou e envolve todos nós

Quase 50 anos atrás o filosofo canadense Marshal McLuhan previu que a próxima guerra mundial seria travada no terreno da informação. O prognóstico está se concretizando com algumas variáveis que o visionário da comunicação não conseguiu antecipar. A Guerra da Informação do século XXI já começou e envolve pelo menos dois bilhões de combatentes de todas as nacionalidades, raças, credos, idades, sexos e graus de instrução.

Foto National Archives USA

O termo Guerra da Informação entrou para a agenda contemporânea da imprensa por causa do bate boca entre Donald Trump e a imprensa norte-americana na questão das notícias que o imprevisível presidente norte-americano qualifica como falsas só porque o desagradam. Os especialistas em desinformação aproveitaram também a quase certa interferência de blogueiros e hackers russo e macedônios na campanha eleitoral nos Estados Unidos, em 2016, para associar o fato a uma reedição da Guerra Fria entre capitalistas e comunistas, no século passado.

Mas a comparação do que está acontecendo agora com o que ocorreu no passado em matéria de guerras mundiais engana mais do que esclarece a questão. Não pretendo entrar na questão das estratégias de combates porque este é o terreno dos militares, e o que estamos protagonizando agora é um conflito estruturalmente distinto porque houve uma inédita inversão nas funções desempenhadas pela informação e pelas armas dentro de uma guerra. Os manuais tradicionais de guerra perderam boa parte de sua utilidade porque os militares já não conseguem mais controlar as novas ferramentas virtuais de condicionamento da opinião pública.

É na rede mundial de computadores que o conflito está sendo travado tendo como objeto principal o manejo da informação. Não há fronteiras nesta guerra, não há frentes físicas de combates e nem exércitos estruturados na forma tradicional. As armas de destruição em massa, tipo mísseis, bombas nucleares, encouraçados, porta-aviões, caças supersônicos e bombardeiros invisíveis passaram a ser mais eficientes como peças de informação e contra-informação do que pela sua capacidade de causar mortandades.

Nós, a população civil ainda não tomamos consciência de que não somos mais espectadores de uma guerra, mas protagonistas na medida em que acessamos a internet , não importa quem somos ou onde estamos. Cada vez que entramos numa rede social, acessamos um computador, tablet ou celular para trocar mensagens ou publicar nossas opiniões passamos a ser alvos e agentes da disseminação de dados, fatos, eventos ou ideias que vão influenciar outras pessoas a pensar e agir desta ou daquela maneira.

Nas guerras tradicionais só participavam os que tinham algum tipo de armamento ou experiência de combate. Hoje basta ter um notebook ou smartphone com acesso à internet para tornar-nos soldados na guerra para definir qual a versão de um fato, dado ou evento vai predominar dentro das comunidades sociais nas quais estamos inseridos.

No passado, a informação era usada como suporte para operações militares em terra, mar ou ar. Agora, ocorre o contrário. São as operações que criam o ambiente para a guerra da informação, como vem acontecendo em várias partes do mundo. O disparo de um míssil intercontinental é feito mais pensando no impacto que o fato terá na opinião pública mundial do que pelos seus efeitos concretos. Exercícios militares são programados também com o mesmo objetivo, ou seja, buscar simpatias usando informações geradas a partir de ações destinadas a criar um ambiente de medo capaz de induzir à submissão.

A guerra das percepções

A Guerra da Informação é muito mais complexa que as travadas por militares, guerrilheiros ou terroristas porque envolve nossas percepções da realidade. Percepções daquilo que vemos, ouvimos, sentimos, cheiramos ou degustamos, mas também daquilo que nos é transmitido por outras pessoas, pela imprensa escrita e audiovisual, e pela internet.

A avalancha informativa gerada pela Web despeja sobre nós um volume imenso de percepções de outras pessoas, o que nos deixa perplexos, inseguros e desorientados porque nos é muito difícil identificar as opiniões que são confiáveis ou não. Ficamos literalmente dentro dos famosos ditos “mais perdido que cego em tiroteio” ou “mais desorientado que cachorro em procissão”. A nossa insegurança é o grande alvo na Guerra da Informação, porque a incerteza tem efeito paralisante e quem lograr este objetivo conquista uma importante vantagem no conflito.

A insegurança informativa é algo normal num cenário como a internet onde se multiplicam as versões sobre quase todos os temas incluídos na agenda pública de debates. A incerteza se torna um fator bélico quando tomamos como verdadeiras notícias produzidas e veiculadas com objetivos estratégicos. A partir do momento em que assumimos posições tendo como base a credibilidade nesta ou naquela fonte, passamos a ser reprodutores desta notícias, ao compartilhá-la nas redes sociais, blogs ou correio eletrônico com outras pessoas que, por sua vez, reproduzirão o mesmo ciclo.

Tomemos o caso da polemica sobre os armamentos nucleares da Coréia do Norte. A imprensa nacional e internacional alimenta um bate boca entre os líderes dos dois países a partir de informações sobre as quais temos pouca ou nenhuma capacidade de checar a veracidade. Além de não termos os meios de fazer esta verificação, a velocidade, complexidade e intensidade das notícias atropelam nossa capacidade de reflexão.

Tanto Donald Trump como Kim Jong-un inflam a possibilidade de uma guerra nuclear com o objetivo de criar o temor de um novo holocausto, mas sabem que se forem até as ultimas consequências , ambos sairão derrotados. É a informação que alimenta o medo, dai a sua importância como ferramenta prioritária em guerras onde o objetivo central é a opinião pública e não mais a conquista de territórios.

Sugestões de leitura

Para os que desejarem mais informações sobre o tema, aqui vão algumas dicas de leitura.

- Culture is our business, livro de Marshall McLuhan, 1970.

- War in 140 Characters: How Social Media Is Reshaping Conflict in the Twenty-First Century, livro publicado em novembro passado pelo jornalista e pesquisador David Patrikarakos. Disponivel em ebook Kindle. https://www.amazon.com/War-140-Characters-Reshaping-Twenty-First/dp/046509614X É possível ouvir um podcast do autor falando sobre seu livro em http://www.wnyc.org/story/war-140-characters-social-media-new-battlefield/

- Fighting the information War, artigo escrito pelo professor Philip Seib, do jornal online Huffington Post analisando as estratégias da Rússia na Guerra da Informação. Disponível em https://www.huffingtonpost.com/philip-seib/fighting-the-information_b_8203348.html

- Digital World War, livro , lançado em outubro passado pelo ex-assessor do Departamento de Estado, Haroon Hulah. https://yalebooks.yale.edu/book/9780300231106/digital-world-war

- The New Information Warfare , artigo escrito pelo jornalista Murtaza Hussain para o site Intercept . https://theintercept.com/2017/11/25/information-warfare-social-media-book-review-gaza/

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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