A grande falha na imprensa na cobertura da Covid 19

Nós estamos testemunhando uma contradição preocupante. Enquanto o número de casos de contaminação pela Covid 19 dispara no Brasil e no mundo, diminuiu assustadoramente o grau de preocupação do público com a doença. Este descompasso pode ter inúmeras causas, mas uma delas afeta diretamente os jornalistas, pois evidencia falhas importantes dos profissionais e das empresas jornalísticas no cumprimento da missão de atrair a atenção das pessoas para fatos relevantes.

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Foto Wikimedia / CC

Esta missão é criticamente importante em situações como a de uma pandemia que já matou mais de 160 mil pessoas, aqui no Brasil. É como se a população inteira de uma cidade como São Caetano do Sul, São Paulo, desaparecesse de um dia para outro. Os profissionais e as empresas de comunicação levam até as pessoas os dados, fatos e eventos que as permitirão proteger-se contra o Coronavírus. Quando os indivíduos deixam de se proteger é sinal de que algo está errado na comunicação ou as informações geradas por especialistas e governantes são equivocadas.

Ao analisar o desempenho dos jornalistas e das corporações na pandemia vemos logo de cara um problema, que não é específico da situação atual, mas torna-se importantíssimo dadas as circunstâncias em que ocorre a Covid 19. Os jornalistas e a imprensa se acostumaram a encher páginas de jornais, de revistas ou ocupar os noticiários em audiovisual com dados, fatos e eventos produzidos por governantes e especialistas, num fluxo unidirecional, das redações para o público em geral.

Acontece que as tecnologias digitais de comunicação e informação viabilizaram o caminho inverso, ou seja, do público para os profissionais e corporações, como mostra o volume gigantesco de mensagens nas redes sociais virtuais. Quando se fala hoje em jornalismo é obrigatório levar em conta que as pessoas passaram a influenciar jornalistas e empresas na produção e distribuição de notícias.

Ao não dar importância ao fluxo inverso na comunicação noticiosa, o jornalismo não só ignora uma transcendental mudança introduzida pela internet, como não leva em conta que a realidade e a prática das pessoas na convivência com o vírus fornecem dados essenciais para o combate à pandemia. É uma função onde o jornalismo tem habilidades e técnicas especiais para agir como “leva e traz” entre quem toma decisões e quem vive a realidade concreta da doença.

Falha grave

Numa situação crítica como a que vivemos hoje, governantes, especialistas e pesquisadores estão, ou deveriam estar, sobrecarregados diante da responsabilidade de tomar decisões, coordenar ações e investigar a cura do vírus. Ouvir a população, observar suas práticas, temores e reações é algo que a imprensa e o jornalismo deveriam executar por dever de ofício e como contribuição institucional à produção de conhecimentos capazes de levar à cura da doença.

Quando segmentos consideráveis da população deixam de se preocupar com o caráter letal do Coronavírus e com a segunda onda da pandemia, o jornalismo e a imprensa precisam reavaliar estratégias editoriais para verificar onde estão falhando na função de motivar as pessoas a participarem do esforço coletivo de combate à Covid 19. De imediato, é possível identificar um erro grave. A imprensa tem se limitado a transmitir ordens, receitas, advertências e notícias sobre politicagem à propósito da pandemia.

A repetição incessante de instruções e escândalos governamentais ou corporativos acabou cansando as pessoas, que na falta de motivação mais convincente e sentindo-se ignoradas em seus problemas, acabaram simplesmente por fazer de conta que a pandemia não vai atingi-las, especialmente a população mais jovem e os assalariados de baixa renda que precisam trabalhar para comer e sustentar famílias. Mas este é apenas um problema a ser estudado num conjunto de comportamentos.

Faço intencionalmente uma distinção entre jornalistas e imprensa porque ambos têm práticas e objetivos diferentes, mas têm uma responsabilidade comum diante da urgência em salvar vidas. Esta responsabilidade inclui, agora, a revisão das estratégias editoriais, a partir de uma mudança de foco na cobertura noticiosa. Passou a ser fundamental descobrir como e porque as pessoas estão ignorando uma ameaça mortal não só para recuperar a confiabilidade do público no jornalismo, como principalmente produzir informações sobre atitudes da população que podem ajudar os cientistas a ajustarem o foco de pesquisas acadêmicas e os governantes a tomarem decisões corretas do ponto de vista social e clínico.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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