A função estratégica do jornalismo local na redução da desigualdade social

Na Europa e nos Estados Unidos o debate entre jornalistas sobre o novo papel da imprensa local já mobiliza fundações, investidores, universidades, organizações comunitárias e, é claro, os próprios jornalistas. Mas aqui no Brasil o tema ainda é tabu e só entra na agenda nacional quando envolve manobras político-eleitorais. Até mesmo os projetos universitários são uma raridade, enquanto nos Estados Unidos estudos acadêmicos chegam a colocar o fortalecimento do jornalismo local e hiperlocal como um pressuposto para a sobrevivência da democracia.

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Aqui no Brasil, na falta de pesquisas mais atualizadas e detalhadas em cidades pequenas predomina a percepção de que a imprensa local ainda é um virtual monopólio de caciques políticos ou de empresários com aspirações eleitorais. A esmagadora maioria dos veículos locais é formada por publicações impressas periódicas enquanto as emissoras de rádio, uma minoria no quadro local da imprensa, são quase todas comerciais. As rádios comunitárias constituem exceções e geralmente dependem de alguma organização não governamental.

Este quadro, mesmo superficial e não detalhado, mostra que no Brasil teremos que começar do zero no desenvolvimento da imprensa local como um novo e obrigatório componente dentro da estrutura digital de comunicação pública. O acompanhamento do debate mundial sobre a crise no modelo de negócios da imprensa convencional, e sobre as mudanças em curso no consumo de informações por parte do público, mostra que a tendência é sobrarem apenas dois, ou no máximo, três grandes jornais nacionais, enquanto as publicações regionais tendem a desaparecer ou adotar algum tipo de especialização informativa.

Esta tendência é determinada por mudanças em curso e que transcendem o espaço da imprensa como negócio e como mediação entre produtores e consumidores de notícias. A valorização do ambiente local está sendo impulsionada por desdobramentos no processo de globalização econômica e social em vigor desde o final da II Guerra Mundial, em 1945 mas acentuado a partir de 1980, nas relações comerciais e financeiras no mundo.

O fosso da desigualdade

O vertiginoso crescimento da globalização mudou a ordem econômica internacional especialmente em três áreas: a financeira, comercial e a tecnológica. A primeira porque as transações financeiras tornaram-se mais rápidas e complexas, exigindo uma concentração crescente na tomada de decisões, obrigando o setor tecnológico a dar saltos gigantescos em matéria de criatividade e inovações. A comercial aproveitou-se da quebra de barreiras provocada pela globalização financeira para criar blocos econômicos regionais. Disto resultou uma concentração cada vez maior nos processos de tomada de decisões, com o consequente aumento do fosso entre dirigentes e dirigidos na população mundial, fenômeno intensificado pela desigualdade no acesso às novas tecnologias, especialmente as de comunicação e informação.

Socialmente cresceu a marginalização das comunidades periféricas incapazes de interferir nas grandes decisões mesmo tendo acesso a algumas tecnologias como redes sociais, telefones celulares, microcomputadores e correio eletrônico. Apesar da desvantagem em poder de decisão, os segmentos sociais marginalizados na globalização econômica encontraram força suficiente para por em cheque a estrutura política vigente na maioria dos países, tanto democráticos não democráticos. Disto resultou a desorganização gradual do aparelho estatal que passou a priorizar a sua própria sobrevivência em prejuízo dos interesses das comunidades locais.

Neste cenário marcado pela desigualdade de acesso às decisões globais, pelo desabastecimento informativo provocado pela crise na imprensa e pela falência do paternalismo politico-financeiro das burocracias federais, as pequenas e medias cidades vivem dilemas cuja solução transcende os mecanismos tradicionais. As administrações municipais estão deficitárias, não conseguem mais atender às necessidades de saneamento básico, assistência hospitalar, educação, qualidade de vida e mobilidade urbana, só para citar as mais comuns. O paternalismo político/eleitoral e a crescente complexidade dos sistemas de gerenciamento provocaram um aumento exagerado da folha salarial das prefeituras que se tornaram cronicamente deficitárias. São problemas demais e dinheiro de menos, um desafio que inevitavelmente acabará caindo nas mãos, e no bolso, das comunidades de moradores.

O imperativo da informação local

Mas para que estas comunidades tenham mínimas condições de enfrentar os problemas colocados diante delas, haverá necessidade de informações e principalmente do intercâmbio de dados e conhecimentos, a matéria prima de jornais, emissoras de rádio, revistas e emissoras de televisão, todos locais. A imprensa nacional e regional não tem condições de atender esta demanda de informações porque não tem recursos para pagar correspondentes nos pouco mais de cinco mil municípios brasileiros. Só a imprensa local em estreita associação com a população pode produzir e gerar troca de dados, fatos e noticias capazes de alimentar tomadas de decisões por quem realmente conhece a realidade de uma cidade do interior.

Seguindo nesta linha de reflexão, fica claro que o fortalecimento do jornalismo local é essencial para a busca de soluções para a crise financeira nos municípios. Além disso, sem notícias locais, fica quase impossível decidir sobre grandes questões regionais e nacionais devido ao risco de fracassos catastróficos por falta de uma base real de dados e fatos. Fracasso significa desperdício de recursos financeiros públicos num momento em que o governo federal enfrenta déficits orçamentários crescentes. Além disso, os grandes jornais nacionais precisam de informação local para alimentar a sua agenda noticiosa e promover reportagens investigativas de caráter intermunicipal.

Este texto procurou dar uma base muito geral sobre o contexto da crise na imprensa local e sinalizar como ela pode, ao engajar-se com a população, contribuir para a reconstrução econômica e política dos municípios. O tema será desdobrado numa sequência de postagens futuras sobre a dinâmica de uma nova imprensa local como provedora de dados, notícias e informações para a população e não como negócio comercial ou político partidário. Também pretendo fornecer elementos para debates sobre como a comunidade terá um papel fundamental na sustentabilidade de uma nova imprensa local e alguns modelos de exercício do jornalismo em ambiente comunitário. Até breve

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