Quem vive navegando pela internet tem constatado o surgimento de uma expressão que aparece como frequência cada vez maior em estudos sobre comportamentos na era digital. É fadiga informativa, uma reação ao excesso de informações que está levando muita gente ao chamado black out noticioso, o desligamento total da agenda de notícias da imprensa.

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Foto Wikimedia / Creative Commons

Parece mais um modismo tecnológico mas o fenômeno é tão sério que já preocupa os donos de jornais, revistas, sites da internet e de emissoras de TV, cuja sobrevivência financeira depende de audiências cada vez maiores. É um problema mundial que afeta principalmente os países com alto índice de conexão à internet, como Coréia do Sul, Estados Unidos, Finlândia, Suécia e Dinamarca. E também já foi incorporado à lista de síndromes sujeitas à tratamentos clínicos, em casos mais graves.

O excesso de informações em relação à capacidade individual de entendimento destes dados, fatos e eventos não é novo na história da humanidade. Platão já alertava os gregos sobre os efeitos que ele considerava “maléficos” na popularização da escrita porque impedia a emotividade da oratória. No período romano, Sêneca advertiu que a leitura de livros provocava danos ao intelecto porque fornecia mais conhecimentos do que a capacidade individual de compreendê-los.

Mas foi no século XV, após a descoberta dos tipos móveis por Johannes Gutenberg, que surgiram os primeiros indícios do que hoje é conhecido por “avalancha informativa” da era digital. Em 100 anos, as gráficas européias da Idade Média publicaram mais livros do que em toda a história anterior da humanidade. Hoje, diariamente são publicados na Web , 15,2 milhões de textos por minuto, segundo a empresa britânica Micro Focus. É um volume 17,2% maior do que em 2016.

Abstinência noticiosa

A fadiga informativa é um tema pouco tratado na imprensa porque ele afeta a estrutura das empresas de comunicação jornalística e as expõe a um dilema complicadíssimo, que pode ameaçar o seu futuro, especialmente os grandes conglomerados midiáticos. O professor e escritor norte-americano Christopher Hebert acaba de publicar um longo texto no jornal inglês The Guardian no qual reproduz sua experiência de um ano sem ler jornais, revistas, assistir televisão e nem acessar sites noticiosos na Web.

Hebert, após dez meses de abstinência noticiosa, admitiu que o stress provocado pelo acompanhamento constante da agenda da imprensa havia desaparecido e que o fato de estar menos contaminado pela confrontação permanente entre os principais protagonistas políticos de seu país, permitiu que ele passasse a ter um relacionamento mais tranquilo até com antigos desafetos.

Consumir notícias é diferente de estar informado. O consumo implica um envolvimento total com o que está sendo lido, ouvido ou visto. Já estar informado implica uma avaliação crítica das informações obtidas. Ainda segundo o professor norte-americano, a imprensa comercial adota uma estratégia que procura criar um estado de permanente tensão entre leitores, ouvintes ou telespectadores, partido a premissa (falsa) de que neste estado de espírito as pessoas tendem a consumir mais notícias.

A neurose do consumo noticioso começa a ganhar características virais conforme mostram os comentários surgidos na plataforma Medium a propósito do texto de Christopher Hebert . Isto acabou engrossando o movimento batizado de “slow journalism” (jornalismo lento) cuja preocupação principal é evitar a fadiga informativa por meio de um ritmo menos industrial na divulgação de notícias para não gerar tensão nos leitores, ouvinte e telespectadores.

O empenho obsessivo em chamar a atenção do público está cansando as pessoas, que lentamente estão adotando a abstinência noticiosa como uma espécie de terapia pessoal. O índice de ascetas informativos está crescendo conforme mostrou uma pesquisa do Edelman Trust Barometer, segundo a qual 1/3 das pessoas entrevistadas admitiu estar lendo menos notícias do que há um ano.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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