A estratégia oculta no noticiário policial nos telejornais brasileiros

O destaque dado atualmente pelos principais telejornais brasileiros ao noticiário policial já não consegue mais disfarçar a existência de uma linha editorial preestabelecida cujos objetivos ainda são pouco claros, mas, nem por isto, menos preocupantes.

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Ilustração Pixabay / Creative Commons

Telejornais da rede Globo e da TV Bandeirantes têm dedicado metade e até dois terços de seu conteúdo a divulgação de ações da Polícia Federal em vários estados brasileiros, a iniciativas do Ministério Público (federal e dos estados) na investigação de supostos delitos de várias naturezas, a punições impostas por tribunais em todas as instâncias e a operações deflagradas por policias civis estaduais em diversos âmbitos, com destaque especial para tráfico de drogas, crime organizado e os chamados delitos morais (estupros, pedofilia e feminicídios).

A preferencia pela cobertura jornalística na área policial é uma tendência antiga na nossa imprensa, mas o diferencial atual é que ela não se limita mais apenas à exploração do lado mórbido ou escandaloso da delinquência, mas foca no lado moral e na onipresença da ação repressora e condenatória. Antes a preocupação era usar a curiosidade pública para vender jornais e seduzir audiências. Agora é cada vez mais clara, a prioridade gerar um fluxo de notícias capazes de condicionar o desenvolvimento de valores e comportamentos sociais.

O amplo destaque dado à informação policial está tirando espaços da informação sobre a conjuntura política vivida pelo país diante de uma mudança na chefia do governo federal que sinaliza mudanças muito importantes em questões que afetam diretamente a população nos campos da política, economia e realidade social. Temas não faltam e nem preocupações com o futuro, o que por si só já justificaria uma maior atenção ao debate das alternativas que teremos que enfrentar.

Mas nada disto está acontecendo. Até mesmo temas que impactam a elite política do país têm sido abordados com uma sintomática superficialidade, como é o caso da reforma da previdência, reforma politica e os planos econômicos em elaboração na equipe do futuro ministro Paulo Guedes. O noticiário se limita ao factual, ao pitoresco ou ainda aos aspetos que podem prejudicar os seguidores do ex-presidente Lula.

A prioridade dada ao noticiário policial pode ser interpretada de várias maneiras, mas todas elas têm em comum o fato de gerarem incertezas para nós cidadãos comuns. As omissões na abordagem dos grandes problemas nacionais indica uma preocupação em criar um clima de tranquilidade antes da eventual decretação de mudanças traumáticas na economia popular após a posse de Bolsonaro.

Entre o medo e a agressividade

A ênfase na publicação de notícias sobre ações da polícia, dos promotores, delatores, prisões, condenações e debates entre juízes, tende a alimentar dois tipos de comportamentos sociais: O medo por parte daqueles que não compartilham totalmente da ideologia do futuro governo e uma sensação de proteção por parte dos que apoiam Bolsonaro e sua equipe. Tanto uma como outra geram mais preocupações do que tranquilidade. O medo está obviamente associado a uma situação opressora porque a onipresença de organismos de repressão faz as pessoas sentirem-se acuadas, ao mesmo tempo em que alimenta tendências extremistas. A proteção serve como justificativa para a reprodução de condutas repressoras, sectárias e agressivas.

É essencial discutir as implicações de uma estratégia editorial para que nós, cidadãos e consumidores de informações, possamos ter uma noção mais clara do tipo de conjuntura para a qual estamos sendo levados pela imprensa. Esta, obviamente, não está priorizando a informação policial por sua conta e risco. Uma iniciativa de tal amplitude e relevância politica inevitavelmente está inserida num projeto mais amplo. É importante ter a noção de que as coisas não acontecem de repente e que a reação a uma determinada estratégia não pode ser feita sem uma avaliação previa.

Criticar a onipresença policial e da máquina judiciária, sem explicitar o contexto, pode funcionar como uma arma de dois gumes. Pode gerar a percepção de que se está defendendo a corrupção, a impunidade ou a velha política representada por protagonistas como o senador Renan Calheiros. Criticar a obsessão da mídia com a formatação midiática das ações de Policia Federal e das Corregedorias das policias estaduais pode levar a falsa visão de que se está minimizando a corrupção que tomou conta de boa parte do aparelho policial a nível local, em todo o país.

Estamos vivendo uma situação complexa em que as formas convencionais de analisar fatos e condutas políticas não servem mais para identificar a real natureza dos processos e conjunturas que afetam o nosso dia a dia. Este é o pressuposto obrigatório para que possamos identificar a natureza dos dilemas que nos afetam no momento.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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