A estratégia de metralhadora informativa e a polarização da crise brasileira

Acompanhar o desenvolvimento da crise politica no Brasil pela imprensa tornou-se uma atividade altamente neurotizante. Somos bombardeados por uma avalancha de notícias e acabamos empurrados para um dilema: assumir o caráter paranoico de um noticiário que não conseguimos entender ou simplesmente ignorar tudo o que está acontecendo para evitar a desconfortável sensação de que somos enganados o tempo todo.

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Stress informativo / Autor Eilidhmcauley - Creative Commons

Há ainda outro elemento na neurotização informativa. Segundo o jornalista e pesquisador norte-americano Rob Howard a velocidade e intensidade do fluxo de informações pela internet provoca o aumento da polarização e radicalização da das opiniões das pessoas. Rob estuda há nove anos as reações do público à avalancha informativa e chegou à conclusão de que a falta de tempo para “digerir” as noticias, leva as pessoas a se refugiar em grupos formados por indivíduos com as mesmas opiniões.

Grupos com estas características tendem ao extremismo como mostrou o professor e escritor Cass Sunstein, autor do livro Going to Extremes. O autor afirma que o processo de formação de guetos informativos ocorre nas mais diversas áreas do conhecimento humano, desde preferências musicais e esportivas até religião, politica, ideologias e relações étnicas ou culturais. Ao não conseguirem entender determinado fato ou fenômeno, as pessoas não suportam a duvida e buscam conforto em quem pensa igual a ela. Para Sunstein, grupos com posições similares tendem ao extremismo porque as justificativas acabam se somando, como ocorreu no surgimento do nazismo, na Alemanha, antes de II Guerra Mundial..

Transpondo este fenômeno para o campo da imprensa contemporânea , tomemos, por exemplo, o caso dos programas jornalísticos da Globo News (canal fechado). Os boletins noticiosos e telejornais são uma verdadeira metralhadora informativa onde uma denúncia se sucede a outra sem que a gente tenha tempo de pensar sobre o que acabamos de assistir. Os apresentadores fazem questão de acentuar a tensão na narrativa das notícias, enquanto os comentaristas emitem opiniões sem que um discorde do outro.

A conversa cifrada

Já os especialistas levados a programas de entrevistas expõem suas ideias sem que o telespectador receba informações sobre o que pensam, o que fazem e fizeram. Apresenta-se uma pessoa como professor de economia, sem um mínimo de contexto sobre o personagem, que pode emitir opiniões encomendadas por alguém mais ou passar informações enviesadas, sem que a gente possa identificar estas distorções. Para acreditar no que é dito, só aceitando a isenção da emissora que escolheu o entrevistado. No caso da TV Globo, esta isenção é questionável por conta de inúmeros antecedentes.

A conclusão a que podemos chegar é a seguinte: o noticiário sobre a crise nacional, no fundo, é uma conversa entre protagonistas do jogo pelo poder, porque só quem está nesta condição é que consegue identificar os códigos embutidos na seleção, organização, ordenamento e apresentação das notícias e opiniões transmitidas. Neste contexto, o indivíduo que não compartilha os códigos da elite governante, acaba sendo levado à posição de torcedor no jogo da política.

O telespectador comum não consegue captar as omissões, silêncios e prioridades assumidas pelos principais formadores de opinião e acaba condicionado mais pela forma de transmissão de notícias, onde o ritmo veloz dos apresentadores de telejornais impede uma reflexão sobre o que foi divulgado.

O processo é repetir a mesma informação sucessivamente para que ela impregne o subconsciente do telespectador que acaba assumindo o que viu ou ouviu como sendo, no mínimo, incontestável. Na TV Globo uma mesma notícia sobre algum evento considerado importante pela emissora, como no caso dos políticos acusados pela Lava Jato, é repetida sem alterações nos quatro telejornais diários do canal aberto e nos boletins de hora em hora na Globo News.

Na cobertura das delações premiadas do caso Friboi, o famoso vídeo do “homem da mala” contendo 500 mil dólares supostamente destinados a Michel Temer, entrou quase todos os dias nas primeiras semanas de junho, em mais de uma edição dos telejornais da Globo. Eventuais dúvidas sobre a culpabilidade do presidente acabam soterradas pela repetição da cena onde o ex-assessor Rodrigo Rocha Loures sai correndo de uma pizzaria em São Paulo carregando a fatídica mala.

As demais emissoras seguem mais ou menos o mesmo modelo, sem a mesma sofisticação da Globo em matéria de manipulação de informações. Elas até podem ter divergências ou prioridades políticas distintas da emissora líder na audiência, mas evitam tornar claras as suas estratégias deixando o telespectador sem elementos para diversificar o seu julgamento político.

A complexidade do jogo de interesses envolvidos na atual disputa pelo poder em Brasília confunde o grande público porque a metralhadora informativa não dá chances para uma mínima contextualização dos dados, fatos e processos publicados pela imprensa. Este comportamento a torna corresponsável pela formação atual de extremismos políticos e ideológicos no país.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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