A estratégia da dúvida na política e no jornalismo

Semear dúvidas, desconfianças e incertezas tornou-se atualmente uma arma eficiente para desestabilizar adversários, na política, na economia e nas empresas. A estratégia da dúvida se tornou a principal arma de governantes como Donald Trump e Jair Bolsonaro que desprezam evidências para multiplicar afirmações sem comprovação e que, através das mídias, contaminam o debate político.

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Ilustração Wikimédia / CC

Trump e Bolsonaro, para citar apenas os exemplos mais notórios, afirmam que foram fraudulentas as eleições realizadas neste mês de novembro nos Estados Unidos e aqui no Brasil. Nenhum dos dois mostrou qualquer tipo de prova, mas eles acabaram inserindo na agenda pública a questão da confiança em processos eleitorais, especialmente na etapa das apurações.

O uso da dúvida tornou-se politicamente eficiente por causa da insegurança informativa provocada pela epidemia das fake news que espalhou incertezas entre milhões de consumidores de notícias, no mundo inteiro. Os adeptos da estratégia da dúvida desprezam a lógica e a coerência, acreditando que quanto maior a desorientação do público, menores as chances de serem desmascarados.

Para que a estratégia da dúvida alcance os seus objetivos ela exige personalidades em cargos influentes e uma ampla divulgação pela imprensa e redes sociais, o que coloca o jornalismo como um dos protagonistas chaves no processo. O processo de disseminação de dúvidas infundadas começa geralmente pelas redes sociais passando depois para o noticiário da imprensa onde ganham notoriedade política, geralmente num contexto de confrontos entre partidos ou candidatos.

Donald Trump tornou-se o principal artífice do uso da desestabilização informativa ao justificar sua resistência a admitir a derrota nas eleições de 5 novembro alegando fraudes eleitorais. O presidente norte-americano criou factoides sobre as apurações para induzir seus seguidores acreditar numa fraude nunca provada, mas que serviu como cortina de fumaça para que Trump agisse no front diplomático criando problemas para seu sucessor, como ocorreu no caso do assassinato do principal cientista atômico iraniano, esta semana em Teerã.

Um desafio complexo para o jornalismo

Aqui no Brasil, blogueiros bolsonaristas postaram 700 mil mensagens nas duas semanas seguintes ao primeiro turno das eleições municipais do dia 15 afirmando que houve fraude na votação e nas apurações. O próprio Bolsonaro referiu-se, em mais de uma ocasião, a supostas irregularidades no pleito onde seus candidatos foram derrotados em quase todos os estados brasileiros.

O presidente seguiu ao pé da letra o modelo trumpista para se manter em evidência, mesmo quando parlamentares e magistrados atestam a confiabilidade das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro. Como qualquer processo jurídico contra os semeadores de falsidades é demorado, o custo-benefício da ação ilegal acaba sendo compensador, porque quando a ação for finalmente julgada a dúvida já estará esquecida pelo público.

O uso político da disseminação de dúvidas coloca um desafio importante e complexo para o jornalismo. Profissionalmente, repórteres, editores e analistas tem o dever ético de verificar e denunciar eventuais mentiras, meias verdades ou falsas notícias inseridas na agenda pública de debates. Mas por outro lado estão sujeitos à regras corporativas que podem estar associadas a interesses políticos ou econômicos.

É uma posição delicada e que pode colocar em lados opostos a ética profissional e o interesse de empregadores. Mas o que se tem notado é que a maioria dos veículos de imprensa assumiu uma posição identificada com a defesa da veracidade neste caso específico da manipulação de dados, fatos e eventos para criar dúvidas e inseguranças entre os eleitores, no contexto político atual aqui e nos Estados Unidos.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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