A despolitização da política e o papel da imprensa na campanha para as eleições de 2018

Já não há mais muitas dúvidas de que as eleições presidenciais de 2018 serão disputadas num ambiente muito diferente dos anteriores pleitos presidenciais. É que são cada vez mais fortes os indícios de que está em curso um processo que poderíamos chamar de despolitização da política, ou seja, as questões técnicas, morais e jurídicas tendem a predominar sobre os argumentos político-partidários e ideológicos na campanha eleitoral que já começou.

Os sinais indicadores do surgimento da nova conjuntura podem ser vistos na crescente articulação empresarial em torno da figura do apresentador de TV Luciano Huck ; a multiplicação de novas siglas, já batizadas de start ups políticas, numa alusão às inovadoras empresas de garagem criadas por jovens no inicio da era digital; a criação de um fundo privado para financiar candidaturas não alinhadas com os atuais partidos políticos; e a ênfase total na moralização pública a partir da Lava Jato.

De tudo isto emerge um perfil marcadamente empresarial na articulação em curso e que em última análise pretende encontrar uma alternativa entre Lula e Bolsonaro. Os primeiros a manifestarem abertas simpatias pelo nome do âncora do programa Caldeirão do Huk foram empresários mais jovens dispostos a apostar num personagem que já tem visibilidade popular e que pode funcionar como alternativa à uma possível polarização entre esquerda e direita em 2018.

A estratégia dos simpatizantes de Huk parece ser a de usar um personagem sem antecedentes político-partidários capaz de incorporar a preocupação com a renovação e ao mesmo tempo buscar uma associação com a promoção da eficiência e racionalidade na administração pública a partir de privatizações e terceirizações. O marketing da renovação procura seduzir os céticos e desiludidos com a política enquanto a eficiência administrativa é música nos ouvidos empresariais.

O envolvimento de empresas públicas como Petrobras, Eletrobrás e outras, com investigações sobre corrupção, bem como a pesada campanha alegando o colapso do INSS e do SUS, e as mudanças na legislação trabalhista vistas como uma concessão ao setor privado, mostram a direção da “pororoca” privatizante já em curso. A imprensa tem sido um fator importantíssimo na preparação do contexto psicossocial que condiciona o posicionamento dos eleitores.

A campanha anti-corrupção e a denúncia da ineficiência estatal na gestão da saúde, das aposentadorias , da educação e da segurança pública criaram uma predisposição ao voto privatizante que dificulta tremendamente o discurso eleitoral de Lula. As principais armas eleitorais do ex-presidente são a ideologização e o populismo, responsáveis pela liderança nas pesquisas de intenção de voto. A dúvida é se o ex-presidente conseguirá ressuscitar a imagem de renovação e de esperança que foram o seu apanágio nas campanhas presidenciais de 2002 e 2006

O papel da imprensa

O grande dilema dos partidos considerados de esquerda é a sua desvantagem na batalha pela opinião pública porque a anti-corrupção tornou-se a principal peça do discurso dos que apoiam a operação Lava Jato. A avalancha de denúncias do Ministério Público Federal e Polícia Federal, com o apoio da imprensa , primeiro contra o Partido dos Trabalhadores na campanha para a derrubada de Dilma Rousseff, e depois contra e PMDB e seus aliados, criaram na população a imagem de uma corrupção sistêmica no poder executivo e nas cúpulas partidárias.

No lado da direita, o ex-capitão Jair Bolsonaro encanta os segmentos mais revoltados com a corrupção sistêmica no governo e nos grandes partidos, mas o voluntarismo e explosões verbais do pré-candidato ultra-direitsta, assustam a classe média. As pesquisas indicam uma clara oscilação do pêndulo político para a direita nas intenções de voto dos grandes colégios eleitorais do centro-sul do país, mas isto não significa que haja uma unanimidade em torno de Bolsonaro.

Mais importante do que as estratégias eleitorais dos possíveis pré-candidatos presidenciais é o comportamento da imprensa, que se tornou um protagonista tão importante quanto os partidos e movimentos envolvidos na campanha para 2018. Quando falamos de imprensa, falamos dos três maiores conglomerados midiáticos do país (Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e O Globo) que hoje são parte do establishment político vigente porque influem e são influenciados por instituições como os poderes judiciário, executivo e legislativo, bem como movimentos sociais, lobbies empresariais e grupos culturais.

Os partidos políticos, por exemplo, concebem suas estratégias eleitorais levando em conta a função mediadora da imprensa que por sua vez usa o poder de condicionar a formação da opinião pública por meio da agenda noticiosa para influir no posicionamento dos candidatos. Neste papel de leva-e-traz de mensagens, a imprensa começa a alimentar as simpatias pela estratégia da despolitização ao massificar as denúncias de corrupção envolvendo os partidos que apoiam Michel Temer. Ao deixar clara a sua preocupação com o enfraquecimento do presidente de turno, o grupo Globo (jornal, revista e TV) em especial, acaba consolidando a desilusão dos eleitores em relação à política e aos políticos, o que indiretamente alimenta a estratégia da despolitização.

Brazilian journalist, post doctoral researcher, teacher and media critic

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