A ameaça política oculta no uso das redes sociais por chefes de governos

Empossado há menos de um mês, o salvadorenho Nayib Bukele, se tornou o mais novo sócio do clube de líderes políticos que usam as redes sociais para desenvolver um estilo personalista e populista para governar. Tudo indica que a moda vai ganhar cada vez mais adeptos porque são muitas as vantagens para quem ocupa um cargo executivo num contexto de fragmentação partidária e polarização ideológica.

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Nayib Bukele e sua mulher / Foto Wikimedia CC

O primeiro a usar as redes sociais para se comunicar diretamente com seus simpatizantes e comandar subordinados foi Donald Trump, nos Estados Unidos, em 2016. O seu maior seguidor na América Latina é Jair Bolsonaro, que agora tem em Nayib Bukele um colega ainda mais radical em matéria de tuites e postagens na internet.

O uso das redes sociais como recurso para incrementar o personalismo e o carisma populista no exercício da presidência da república permite a seus adeptos reduzir ao máximo as aborrecidas negociações com parlamentares e lobbies empresariais dirigindo-se diretamente ao público.

A conjuntura politica na maior parte dos países, especialmente aqui no Novo Mundo, está marcada pela perda da identidade ideológica dos partidos políticos, um fenômeno que pulverizou quase todas as agremiações tradicionais. Com isto houve também uma fragmentação das lideranças partidárias, fato que obrigou os governantes a terem que negociar acordos e concessões com um grande número de interlocutores políticos.

Para personagens impulsivos e impacientes como Trump e Bolsonaro, o imediatismo das redes sociais é quase uma benção na batalha para impor seus pontos de vista num cenário político instável e imprevisível. Facebook, Twitter, Whatsapp, Telegram e Youtube passaram a ser ferramentas essenciais na construção de regimes autoritários e no acelerado desgaste do modelo político convencional.

Nayib Bukele, 37 anos, o mais jovem presidente de El Salvador (sete milhões de habitantes e do tamanho de Sergipe) tem cerca de 800 mil seguidores no Twitter e se auto define com o mais “cool” (maneiro, descolado) de todos os chefes de estado do continente pelo uso que faz das redes sociais para governar. Ele praticamente suprimiu as reuniões ministeriais e seus ministros, bem como seus subordinados, acabaram tendo que também mudar sua rotina para incorporar os smartphones como ferramenta obrigatória de trabalho.

As redes são, em princípio, um ambiente aberto e interativo. Mas depois que elas foram invadidas por políticos populistas, criou-se uma situação paradoxal. Enquanto a maioria absoluta dos usuários participa ativamente de discussões com desafetos, no caso dos políticos, eles deixam esta missão para equipes de profissionais especializados ou grupos de seguidores incondicionais.

A dinâmica do discurso do ódio

Presidentes, ministros e líderes partidários sentem-se , assim, protegidos e sem necessidade de prestar esclarecimentos à opinião pública. As redes sociais tornam-se um instrumento para a afirmação de tendências autoritárias e antidemocráticas, apesar delas terem sido criadas visando o relacionamento aberto e transparente entre internautas.

O desvirtuamento da proposta original foi provocado pela utilização maciça de algoritmos (softwares para automatização de ações digitais) na gestão da avalancha de comentários sobre postagens em redes sociais. Os algoritmos, programados pelos donos de redes como Facebook, Twitter e Youtube, filtram comentários e postagens de uma mesma tendência visando fidelizar o usuário, mas isto acaba gerando bolhas políticas que inevitavelmente evoluem no sentido da polarização e radicalização ideológica, conforme mostram estudos do professor norte-americano Cass Sunstein, no livro Going to Extremes (Oxford University Press, 2009).

As postagens de Trump, Bolsonaro e Bukele formam verdadeiras seitas de simpatizantes que, ao interagir entre si a partir de postagens presidenciais, intensificam o confronto com desafetos. Quanto mais antagônicas forem as postagens, maior a tendência de cada um dos lados simplesmente ignorar qualquer preocupação com veracidade e credibilidade. É a dinâmica do discurso do ódio e do sectarismo contaminando as relações políticas.

Trump, Bolsonaro e Bukele alegam que não podem ser responsabilizados pela radicalização do discurso do ódio, mas o processo que eles deflagraram e o contexto sócio-político nos países que governam criaram as condições para a exacerbação dos extremismos ideológicos.

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